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O Caçador

A escuridão caiu sobre a cidade numa húmida e fria noite de inverno. Ruelas antigas e degradadas pela perversa antecipação da quaresma, a noite dos mascarados - a mesma onde as pessoas se vestem delas próprias ou de estranhas personagens de ficção - onde deambulam travestidas, convivendo como criaturas insanas, imundas e talvez mesmo um pouco reais... Cruzando e palmilhando algumas centenas de calhaus basálticos, encerados pela mistura nutritiva de malte e ureia, descortina-se o centro de toda acção festivaleira, o " The Ed Clip Ar ", rico pela sua decoração electrizante, de aglomerados capilares e amostras viris, sofás envernizados com açucares diversos e um basto balcão embalsamado com criaturas dependentes de refresco. Ao som de alguns acordes de grunge e vozes grotescas, ocultas no nevoeiro do tabaco, conhecidas personagens convergem num recanto memorável. Directamente do seu Bar, o  Bordas Alargas , Sergay reeditou a sua fantasia " O prostituto de lux...

O Encalacrador Implacável - Episódio 4

Localidade incerta, algumas dezenas de ânus no futuro O rabiosque de cristal reflectia os acontecimentos do passado como se estivessem a decorrer no presente, fazendo com que o mundo à sua volta os absorvesse, mudando e adaptando-se. O seu sorriso quase parecia não caber naquela estranha face, de tão grande que estava. Começando a saltitar, com a bata esvoaçando, dirigiu-se cantarolando para uma consola pejada de botões coloridos. - O plano está a correr melhor do que pensava, AH AH AH! Está mesmo! – deliciava-se, falando para si – O primeiro teste correu bem, agora só falta atacar em múltiplas frentes! O mundo de lascívia e deboche vai ter de acabar! Vou ficar para a história como o hom… ser! que mudou o presente e o futuro!! – gritou, carregando em diversos botões, manivelas e uma ou outra alavanca. Inúmeros orbes de luz materializaram-se ao longo do laboratório, envolvendo corpos nus (alguns bem horripilantes, acreditem) suspensos e aparentemente inertes. Segundos depois, todos eles...

O Encalacrador Implacável - Episódio 3

Numa tasca perdida no Cais do Sodré, alguns anos atrás (de quem? Como? Oi? Pois é pois é pois é pois é!) Arães encontrava-se junto ao balcão da tasca, de copo esticado na direcção do dono. Este, de ar enfadado, encheu-lhe novamente o copo com o vinho da casa, mas advertiu o cliente notoriamente embriagado que seria a última vez. - Ah, cá putá, ainda só bebi nobe! – retorquiu, indignado – São mesmo meninas aqui em Lisboa, lá no Norte podia beber binte sem ninguém me dizer nada! Fuódasse! Olhou à sua volta até os seus olhos caírem na neta da Deolinda Verrugosa, sentada a uma das mesas apodrecidas do estabelecimento. A rapariga tinha quase a sua idade, mas também tinha a beleza (inexistente) da avó, bem como as verrugas que justificavam a alcunha. Bebeu o copo de um trago, e dirigiu-se à jovem, cambaleante. - Boa tarde! Por acaso nunca ouviu Joana D’Arc? Não? Mas não sabe sequer que são a melhor banda portuguesa? – disse sentando-se, aproveitando o momento aparvalhado da sua inte...

O Encalacrador Implacável - Episódio 2

Localidade incerta, algumas dezenas de anús no futuro As segóvias voadoras cruzavam os céus, com as suas asas branco leitosas estendidas ao vento. Esporadicamente uma delas atacava outra, com o seu apêndice sexual crescendo mais de 500%, arrastando o par de animais para o chão numa última, e mortal, enrabadela. Nem as árvores-mangueira, com o seu formato fálico e cuja seiva odorífera fazia lembrar o cheiro encontrado numa casa de albergadoras Chinesas (1), amparavam a que(d/c)a vertiginosa. Numa alta janela de um alto edifício uma personagem observava todo este espectáculo, visivelmente enojado. “Isto vai mudar... eu vou conseguir mudar este mundo nojento!!” disse, afastando-se. Aproximou-se rapidamente daquilo que parecia uma estatueta de um rabiosque de cristal, mas que no seu interior continha imagens saltitantes. “O meu plano está a correr como previsto! Em breve toda este mundo de lascívia vai acabar! AH AH AH AH” – as suas gargalhadas ecoaram por quilómetros, enquanto um Tesão c...

O Encalacrador Implacável – Episódio 1

Amadora, 23 horas, alguns anos atrás (de quem? Como? Oi? Pois é pois é pois é pois é!) A noite estava escura, e as ruas da Amadora especialmente vazias, naquela noite chuvosa. Os raios rasgavam os céus, iluminando momentaneamente a escuridão. Subitamente, um relâmpago pareceu ganhar vida, percorrendo crepitante os céus e atingindo as traseiras de uma carrinha da “Familly Tost”, que ardeu em segundos, ao som da sua ritmada cançoneta-buzinada “TE-re-RE-re-RE-re-RIIII!”. Por entre os restos carbonizados do veículo, uma esfera de energia cintilante desvaneceu-se lentamente. No seu lugar restou um corpo estranho e desnudo, enrolado numa posição quase fetal, ou talvez na posição que Marylin Manson tanto tentou alcançar em adulto à custa de algumas costelas (analogia gentilmente patrocinada por “ Auto-Bico: o seu concessionário !”). A figura levantou-se, limpou os cantos da boca, e avançou na direcção do homem que limpava a rua, com uma pá. - O que é que queres ó panasca? – perguntou o varred...