Contos do Virgílio - O Repuxo (Continuação)

O velho Virgílio estava agastado. Eis que se preparava para declamar a sua epopeia quando aquela piolhosa matulagem lhe havia estragado o clima de mistério. Riem-se, seus malandros? Então ide-vos foder, vou arranjar público que me mereça!
Virgílio estava cansado e bastante disposto a voltar para a sua morada. O único senão é que, na aldeia, não havia criatura mais miserável que Virgílio, o "Sem-Cheta"! Nem um barril tinha pra se poder abrigar...
As piadas à sua conta eram facadas no seu peito, só ignoradas pela veemência das facadas da fome.
Nem uma porra duma casca de banana tinha para mastigar, à laia de chewing-gum!
"O meu maior inimigo é a velhice, ninguém liga aos velhos nesta puta desta aldeia!" pensou Virgílio. De facto, Virgílio era o mais pobre porque a sua idade não lhe permitia trabalhar no campo, e naquele meio rural (pra não dizer atrasado) não havia labor menos pesado de que pudesse tirar o sustento. Não tinha familiares, e também não tinha amigos, pois era uma terra de gente interesseira, gente que ligava mais ao protagonismo de pacotilha...
-Olha, viste o Abílio?
-Ya, o gajo foi ao Coliseu, esteve a 50 passos da Família Imperial!
-Iiii, que espectáculo! E quando é que ele volta? Aposto que vem cheio de contratos de publicidade...
-...nem por isso. Foi lá pra ser executado...
E assim viviam os matarroanos na ilusão de que a fama e a fortuna lhes bateriam à porta, bastando para isso mandar cupões para os concursos, aparecer em poses provocantes no pergaminho central do Grande Compêndio Semanal do Império e apostar na lotaria.
"Que cambada de imbecis!" pensou Virgílio, com mais pena que rancor. "Ninguém demonstra o mínimo interesse na excelência, no derrube das barreiras, na superação pessoal! Na minha juventude fui um aventureiro, vivi dramas ináuditos, combati bestas lendárias e conheci a intimidade de muitas mulheres (por vezes mais do que uma ao mesmo tempo), se o cabrão do agente literário me tivesse aceite o pergaminho..." Esta era a recordação que lhe trazia mais amargura. Quantas moedas de ouro não teria facturado com a publicação das suas memórias! Mas, infelizmente, resolveu fazê-lo ao mesmo tempo que um certo Tonan, da longínqua Barbária. A publicação deste último não lhe era superior em prosa, salvo que usou de menos parcimónia nas partes badalhocas, mais algum mexerico em torno dos hábitos curiosos duma certa figura pública e... tinhamos um veste-célar!
"Depois disso, passei a ser o gajo que veio depois do Tonan..." pensou, amargurado.
"Enfim, não se pode ter tudo..."
...
...
...
...
...
"-Grande cabrão!"
(continua)

Comentários

Chas. disse…
Um bom regresso.
Fiquei perdido na história porque é uma daquelas continuações anuais.

;)
Captain Dildough disse…
Pois o anterior está a seis posts de distância, para veres que não sou o único que só contribui anualmente...
R.B. NorTør disse…
Sim, mas o ultimo Tonan (ver blog menos badalhoco) esta a mais de 6 posts de distancia... Olá se está!

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